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“Os veículos autônomos vão piorar – e não melhorar – o trânsito”

17-01-2018


Projeções mostram um cenário bem movimentado: mais de 5 bilhões de pessoas vivendo em centros urbanos em 2050. Falar do futuro das cidades é falar sobretudo de como todas essas pessoas irão se movimentar (vale lembrar que elas também viverão muito mais anos). Do car sharing a sistemas de transporte público integrado, passando pelos veículos elétricos autônomos, o mundo da tecnologia apresenta muitas soluções. Agora, é tempo de as cidades e as empresas começarem a discutir e colocar em prática as mais eficientes.

A reflexão é de Michael Peter, CEO de Mobilidade da Siemens. Partindo do ponto de vista da empresa alemã (que vende, por exemplo, sistemas inteligentes para trens e metrôs), Peter defende que é preciso olhar com atenção para o desenvolvimento dos veículos autônomos. Do contrário, eles podem acabar por gerar mais trânsito – e não menos – ao estimular o transporte individual e mudar a dinâmica de movimentação dos carros nas cidades. Para ele, é preciso também falar sobre a regulamentação do car sharing [sistema de aluguel de carros] e integrar sistemas de transporte. Na sede da Siemens, em Munique (Alemanha), o executivo conversou com Época NEGÓCIOS sobre as tendências e desafios do setor.

Quais são os desafios de mobilidade para as cidades nos próximos anos?
O grande desafio é que as cidades não estão ficando menores. Há mais pessoas se mudando para elas, mais gente viajando quilômetros por dia nelas – e gente que irá viver por muito mais tempo. Tudo isso gera mais poluição. Por outro lado, há soluções que vêm sendo desenhadas pela nova economia. Temos uma nova geração que quer usar o carro compartilhado e, pela internet, transportar-se de forma mais inteligente: pegar o veículo já no local onde começa sua viagem e pagar o passe de metrô apenas para o trajeto percorrido, por exemplo.

Pensando nos clientes da Siemens, quais são as novas demandas?
Nossos clientes estão mudando completamente porque agora enfrentam concorrência vinda de todos os lados. Quando o transporte público surgiu, era basicamente uma questão de o governo oferecer um serviço mínimo à população. Agora, há diversas opções: o Uber, o car sharing e o FlixBus [empresa alemã de ônibus de baixo custo que viaja para 26 países europeus], entre outros. Nossos clientes só terão lugar nesse novo ambiente se oferecerem uma solução que perpasse todo o trajeto, do primeiro ponto para pegar o trem até o último ponto depois que você sai dele. Eles me perguntam hoje questões completamente diferentes das que tínhamos há cincos anos. Querem ser capazes de oferecer uma digital trip [experiência de viagem digital] do começo ao fim. Eles também querem ter certeza de que estão oferecendo um transporte seguro e confiável. Uma falha operacional de sistema já não é mais aceitável agora. Há muitas opções de transporte.

Você mencionou o car sharing [sistema de compartilhamento de carros, que pode incluir aluguel]. Esse modelo de mobilidade tem ganhado espaço?
Em Munique, Berlim e várias outras cidades, você já tem uma série de empresas de aluguel de carro pelas quais é possível, por meio do celular, reservar um veículo na hora e ir até o ponto mais próximo para buscá-lo. Há muitas companhias em vários países oferecendo car sharing e fábricas de automóveis olhando para esse sistema. Um ponto interessante é que pode haver uma simbiose grande dessas empresas com as cidades. A cidade pode “doar” algumas rotas para o sistema de car sharing e oferecer espaços especiais para você deixar e pegar o carro de forma fácil. No futuro, estamos falando de um mundo onde existirão licenças diversas para carros com bateria, carros elétricos, inteligência artificial. As cidades precisam entender todas essas possibilidades para oferecer as melhores soluções de mobilidade.

Você acredita em um futuro livre de trânsito e congestionamentos?
Os dados sugerem que o trânsito, na verdade, vai piorar nos próximos anos. As cidades estão crescendo como eu disse antes e, em 2050, teremos mais de 5 bilhões de pessoas vivendo nelas. Isso significa mais quilômetros, mais gente se locomovendo, viajando. O car sharing não tira necessariamente muitos carros da rua e o veículo autônomo vai continuar oferecendo um serviço que privilegia o transporte individual. Nos próximos dez anos, os carros autônomos, por exemplo, vão ocupar mais espaço nas ruas por causa da distância maior que irão manter de outros automóveis por questões de segurança. Isso irá gerar um impacto enorme. Imagine você em uma rua estreita dentro de um carro autônomo parado, porque um caminhão à frente está tentando estacionar. Eu acredito que os veículos autônomos irão gerar um problema pior em termos de trânsito tanto no Brasil como na Alemanha.

Como lidar com essa tendência?
Precisamos entender melhor como as pessoas usam o transporte, como o trânsito flui, quais serviços são aproveitados pelo maior número de passageiros. E há iniciativas das próprias cidades no sentido de impor limites. Em Cingapura e na China, no futuro, só haverá espaço para os veículos elétricos. Em Nova York, os estacionamentos já custam caro. Na Alemanha, há medidas sendo tomadas por causa da poluição. Eu acho que nos próximos cinco anos as cidades estarão criando medidas para limitar o tráfego de veículos e determinar quais tipos de transporte irão circular.

Onde a Siemens está concentrando seus investimentos?
A grande tendência com a qual precisamos lidar é a ideia de transporte sob demanda. Pense no metrô hoje e pegue a média de lotação. Você verá que ou eles estão muito cheios ou estão vazios. Por que isso ocorre? Porque eles foram concebidos a partir da ideia de que era preciso oferecer um serviço mínimo de transporte à população – e não de que esse serviço deveria ser oferecido a partir das necessidades dos passageiros. Porém, antes não tínhamos mesmo uma maneira eficaz de prever em qual momento exato as pessoas iriam utilizar os trens. Hoje, por meio dos passes que vendemos, e do imenso volume de dados que recolhemos, podemos projetar isso. Para tanto, é preciso investir em sistemas mais seguros, flexíveis, que sejam fáceis de serem programados. E usar isso para melhorar a experiência do consumidor. Nós já sabemos prever qual vagão do próximo trem estará cheio e avisar para os passageiros se moverem para outro ponto da plataforma onde encontrarão vagãos mais vazios [a Linha Amarela do metrô de São Paulo, operada com sistema Siemens, já é assim]. Isso otimiza o tempo de embarque e os passageiros podem viajar sentados.

Da Época Negócios.