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Enquanto mobilidade elétrica avança na América Latina, no Brasil está estagnada, diz relatório

16/9/21

RIO – Sem políticas públicas em curso ou pelo menos um plano nacional com metas, a mobilidade elétrica segue como um cenário distante para o Brasil, afirmam especialistas. Enquanto isso, relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), publicado na última semana, mostra que alguns vizinhos da América Latina já saíram na frente.

De acordo com o documento, os esforços nacionais para formular estratégias de mobilidade elétrica cresceram em 2020. Argentina, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua e Paraguai estão em processo de elaboração de seus planos. E Chile, Colômbia, Costa Rica, Panamá e República Dominicana já publicaram políticas nacionais em anos anteriores.

O Brasil chegou a ficar perto de anunciar, em 2018, o seu plano nacional para mobilidade elétrica no extinto Ministério da Indústria e Comércio. No entanto, a mudança de governo esfriou as discussões e o trabalho está parado.

— O Brasil tem um potencial muito grande para melhorar a mobilidade elétrica, já que temos uma matriz energética relativamente limpa. E uma frota de veículos elétricos têm um impacto considerável na qualidade do ar das cidades e ajuda a reduzir a emissão de gases tóxicos, um compromisso do Brasil no Acordo de Paris — afirma a professora do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, Andrea Santos.

Sem coordenação nacional, algumas cidades brasileiras têm, por iniciativa própria, implementado medidas nesse sentido. São José dos Campos, por exemplo, formulou um plano em 2014 e já conseguiu trocar toda a frota da guarda municipal para carros elétricos.

A cidade de São Paulo também já tem um planejamento pronto e, em 15 anos, pretende trocar todos os 14 mil ônibus e caminhões de lixo para veículos elétricos. No entanto, a falta de uma coordenação nacional atrapalha, avalia Flávia Cosoni, especialista no tema do Instituto de Geociências da Unicamp.

— Na ausência de metas nacionais, não mostramos com clareza a direção que queremos ir e não passamos confiança ao mercado — afirma Cosoni.

De acordo com o relatório do Pnuma, as cidades que mais se destacaram na América Latina pelo maior avanço na eletrificação de ônibus de transporte público em 2020 foram Bogotá (Colômbia), com a aquisição de 406 unidades, e Cidade do México (México), que acrescentou 193 trólebus.

No Caribe, Barbados, com uma população de cerca de 300.000 habitantes, colocou 33 ônibus em circulação na capital Bridgetown.

Segundo o estudo, se as tendências atuais continuarem, a partir de 2025 mais de 5.000 ônibus elétricos serão implantados anualmente nas cidades latino-americanas.

Além disso, o mercado de veículos elétricos privados também cresceu em 2020. Na Costa Rica, o registro de carros elétricos aumentou 77% em 2020 e o de motocicletas e similares, 36%.

Já no Peru, a importação de motocicletas elétricas aumentou 220% em relação ao ano anterior, segundo o relatório. Ainda assim, falta heterogeneidade na gama e categoria de veículos elétricos disponíveis na região.

O relatório destaca ainda que os países da região inovaram no desenvolvimento de modelos de negócios que lhes permitem superar os elevados custos iniciais de eletrificação e reduzir os riscos financeiros associados. No entanto, segundo os pesquisadores, estes não são facilmente replicáveis e é necessário integrar soluções que reduzam o risco financeiro para permitir a massificação das frotas elétricas.

Professor do departamento de Engenharia Mecânica da Poli/USP, Marcelo Alves alerta que o Brasil possui um cenário particular na indústria automobilística que dificulta a massificação de carros elétricos no país.

— Temos um mercado automotivo fechado, exportamos e importamos pouco, e essa é uma das razões de a gente não ter tantos veículos elétricos aqui. No Chile, por exemplo, é muito mais fácil e você vê muitos carros chineses e japoneses nas ruas — afirma.

Fonte: O Globo