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Balcão de um bar, cheio de bebidas diferentes

Nos últimos quatro anos, 25% dos bares e restaurantes fecharam as portas na capital

11/2/19

Nem o título de “capital dos bares” garantiu que os estabelecimentos de Belo Horizonte passassem ilesos pela crise. Nos últimos quatro anos, 25% dos bares e restaurantes da cidade encerraram as operações ou mudaram de mãos, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Minas Gerais (Abrasel). Até o mercado de espetinhos, que parecia uma das apostas mais promissoras do setor, teve retração de 40% nos últimos três anos.

Um dos motivos, além do desemprego que obrigou os consumidores a fazer cortes no orçamento, é o caráter cíclico dos empreendimentos de alimentação fora do lar na capital mineira, que passaram por pelo menos dez grandes ondas na última década. Problemas com alvará e multas por excesso de barulho também são obstáculos que os empreendedores têm enfrentado.

Um exemplo emblemático da retração no setor é a unidade do Beb’s na rua Alberto Cintra, bairro União, que teve a obra embargada e levou cerca de seis meses para conseguir o alvará de funcionamento. A rede, que já foi uma verdadeira febre na cidade e ainda possui cinco unidades em diferentes regiões, fechou as portas seis meses após a abertura. “Tinha muito pouco movimento e, segundo os ex-funcionários, eram recorrentes as reclamações de vizinhos”, afirma Anderson Souza, gerente do Hiperfrios, que fica na mesma rua. Nenhum responsável pela unidade foi encontrado para comentar o assunto.

Além dos espetinhos, food trucks, casas de bolo, temakerias e paletas mexicanas foram algumas das modas que “pegaram” e, com pouco tempo, desapareceram do mercado.

Agora, o “boom” são as saladerias e casas de produtos naturais. O problema é que, após uma enxurrada de novos estabelecimentos abertos, vem a saturação e, consequentemente, o fechamento dos negócios.

“É um mercado de modismos, isso é natural. Surge uma nova tendência, várias pessoas abrem estabelecimentos e, quando percebem que não têm sustentação, o mercado automaticamente se enxuga” afirma o presidente da Abrasel-MG, Ricardo Rodrigues.

Segundo ele, a queda também é reflexo da crise econômica, que prejudicou o empresariado de maneira geral. “Não é exclusivo do setor de alimentação, o comércio todo sentiu muito. Quando você tem uma redução do poder aquisitivo das pessoas, é normal que elas mudem os hábitos de consumo”, afirma Rodrigues.

Na região Centro-Sul, o tradicional Paracone atestou esse impacto. As duas unidades, no Santa Efigênia e no Funcionários, que já funcionaram 24 horas e eram ponto de encontro na madrugada, reduziram o horário de funcionamento para se adequar à queda do faturamento.

“A atual situação do país, somada à falta de dinheiro, aumento de violência e lei seca, fez com que o fluxo de clientes ficasse menor na cidade inteira”, conta Lindoval Conegundes, proprietário do Paracone. Agora, as unidades abrem de domingo a quarta, das 7h às 18h, e de quinta a sábado, das 7h à meia-noite.

Outro problema enfrentado pelos bares e restaurantes de Belo Horizonte está nas multas por excesso de barulho. Na avenida Fleming e na rua Alberto Cintra, dois dos maiores corredores de bares da cidade, as reclamações ficaram insustentáveis e vários estabelecimentos fecharam as portas ou foram vendidos nas últimas semanas.

Na rua Alberto Cintra, bairro União, os bares Espetáculo, A Praia, Sr. Bhar, Pier 76 e Beb’s encerraram as atividades. O Boi Brasil também parou nesta semana. Já o Seu Tião optou por continuar, mas com o horário reduzido.

Na Fleming, fecharam os bares Chopptime e Sucata Grill e a hamburgueria Burgueria.

“Esses corredores estão em áreas residenciais e, por isso, os empreendimentos sofrem muitas penalidades por excesso de barulho. Fica insustentável”, afirma Jaderson Rodrigues Lourenço, de 38 anos, ex-proprietário do Sucata Grill, que fechou há um mês.

Após ser multado, ele foi proibido de colocar música ao vivo e, por isso, viu o faturamento cair em mais de 90%. “A legislação não mudou, mas acho que a fiscalização está mais acirrada. Já fui penalizado até sem música, só por causa da conversa entre os clientes”, conta.

De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), o número de vistorias realizadas na cidade teve um pequeno aumento entre 2016 e 2017, mas se manteve estável nos outros anos. Em 2018, o órgão fiscalizador recebeu 9.130 reclamações por excesso de barulho. Os valores das multas variam conforme a gravidade, podendo ir de R$ 150,02 a R$ 18.791,79.

Cuidados simples evitam que investimento em ‘tendência’ se transforme em prejuízo

De acordo com Mônica Alencar, analista da unidade de comércio e serviço do Sebrae-MG, quem quer investir no setor de alimentação fora do lar precisa tomar alguns cuidados. O primeiro deles é estar atento às tendências, para fazer projeções futuras e não optar pelo investimento em um segmento que já chegou ao auge.

“Um erro muito comum é investir quando o mercado já está saturado, no momento em que a tendência está prestes a se estabilizar e, em seguida, entrar em decadência”, afirma a especialista.

Segundo ela, não tem problema investir em uma moda temporária, mas deve-se garantir que a empresa tenha um tempo mínimo de vida, para que os lucros possam acontecer.

Para prever o mercado, uma dica é recorrer a estudos feitos por especialistas do ramo. “Grande parte das modas que surgiram em Belo Horizonte já estavam previstas em um relatório chamado Brazil Food Trends 2020, que foi publicado em 2010 e trazia oportunidades e tendências da década sobre o mercado de alimentos e bebidas no país”, explica.

Outra dica é entender a legislação do setor e adequar o investimento já pensando nos impostos e custos mínimos do empreendimento.

“Os food trucks, por exemplo, regrediram porque esbarraram em uma legislação municipal muito pesada, que praticamente inviabilizava a existência dos carrinhos”, diz, reafirmando a importância de fazer um estudo prévio de mercado, analisar as tendências, o perfil do consumidor e o que ele busca no momento.

“Você tem que ter um plano de negócio, saber quanto dinheiro precisará investir e quanto tempo vai demorar para ter o retorno disso, até para definir se vai embarcar em uma onda ou se quer um empreendimento de vida mais longa”, orienta Mônica Alencar.

No caso de aderir a uma nova moda, é sempre bom ter um plano B, de preferência em um segmento mais tradicional, para não colocar tudo a perder em caso de insucesso no setor.

Por Rafaela Matias, do Jornal Hoje em Dia.