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Tombo da bolsa se aproxima a passos largos da crise de 2008

17/3/20

A turbulência que tem assolado os mercados globais nos últimos dias — intensificada agora por uma dose reforçada de risco político aqui — ameaça as principais teses de investimento para este ano no Brasil, calcadas, até então, no crescimento da economia, juros baixos e continuidade das reformas estruturais. Agora, com o pânico causado pela disseminação do coronavírus e o choque do petróleo, o tombo do Ibovespa em relação à máxima histórica caminha a passos largos para atingir a mesma deterioração de preços da crise financeira global em 2008.

Do recorde registrado em meados de janeiro até a mínima na última quinta-feira, o Ibovespa saiu de 119 mil pontos e perdeu 39% em menos de dois meses. Só na semana passada, o “circuit breaker” foi acionado quatro vezes e o índice acumulou perdas de 15,63% no período, indo para 82.678 pontos. Foi o pior desempenho semanal desde outubro de 2008.

A desvalorização atual já tem quase o mesmo tamanho da observada entre a quebra do Lehman Brothers em setembro de 2008 e a mínima do Ibovespa naquele ano, registrada em outubro: uma perda de 43,8%. Naquela época, o “circuit breaker” foi acionado seis vezes no período de um mês — apenas duas a mais que o ocorrido agora em uma semana.

Tamanha intensidade desta vez é explicada por uma série de motivos, que remontam, inclusive, à própria depressão de 12 anos atrás. Soluções adotadas na época, as políticas de dinheiro fácil pelo mundo, com juros historicamente baixos ou até negativos, levaram os investidores a colocarem seus recursos em aplicações mais arriscadas, como ações ou títulos de empresas com crédito mais frágil.

A busca por rentabilidade se estendeu de investidores mais endinheirados e experientes até pessoas físicas, cujas contas na B3 superaram a marca de 1,9 milhão neste ano. O problema é que, num momento de pânico, o tombo acaba sendo muito mais rápido do que a expressiva ascensão de preços na bolsa, porque todo mundo quer salvar seu patrimônio mas não vê grandes portos seguros.

Os sonhados 140 mil pontos
Agora, diante do rebaixamento das projeções de crescimento aqui e no mundo, por causa dos riscos econômicos do coronavírus, parece ser cada vez mais difícil que o Ibovespa atinja os sonhados 140 mil pontos — tese bastante defendida entre os analistas na virada do ano. E o desânimo se estende para outros ativos locais, deixando bastante improvável que o real se destaque entre os demais emergentes.

“Quando imaginávamos um Ibovespa em 130 mil ou 140 mil pontos, levávamos em consideração o crescimento do PIB [Produto Interno Bruto], lucro das companhias e taxa de desconto cada vez menor. Efetivamente, hoje, ninguém mais acha que o PIB será de 2,5% ou 3%, o que afeta o lucro das companhias, e o dinheiro está mais caro com a alta do CDS [Credit Default Swap]. É um momento de atenção”, afirma Leandro Miranda, diretor-executivo do Bradesco responsável pela Ágora.

O Bradesco ainda não revisou a perspectiva para o Ibovespa já que o momento é de correção no mercado. Miranda pondera, contudo, que “analisando o cenário de PIB e taxa de desconto, imaginar algo como 120 mil pontos seria mais razoável, mas é preciso manter a retomada da economia e ter câmbio estável para atrair o estrangeiro.”

Para Lucas Tambellini, estrategista do Itaú BBA, a expansão do PIB é um dos pilares para o Ibovespa chegar a sua estimativa inicial de 132 mil pontos. Outros pontos são juros baixos, reformas estruturais e crescimento do lucro das empresas em 18% em 2020. “Nessa projeção de 132 mil pontos, prevíamos 18% de expansão de lucros no Ibovespa. Vai dar para entregar? Provavelmente não e tenha que revisar para baixo”.

A derrocada do otimismo no mercado acompanha uma visão cada vez mais temerária sobre os efeitos econômicos da pandemia de coronavírus e da forte queda dos preços de petróleo devido à disputa entre Rússia e Arábia Saudita.

Ao mesmo tempo, há um certo ceticismo com as ações coordenadas de autoridades pelo mundo para enfrentar os riscos econômicos do coronavírus. Para boa parte dos analistas, o Brasil corre o risco de crescer apenas 1,5% em 2020, quase metade do que os mais eufóricos projetavam no começo do ano.

Diante da pressão para tirar o país do sufoco, existe um temor crescente com a situação fiscal depois que o Congresso decidiu, na semana passada, afrouxar algumas regras da nova Previdência — algo que acirra ainda a disputa entre poderes Legislativo e Executivo.

Todo esse ambiente deixa o estrangeiro ainda mais avesso à aplicações em economias emergentes. Sem fluxo, fica difícil esperar uma melhora de outro ativo importante: o real brasileiro. Em 2020, o dólar comercial acumula alta próxima de 20% e chegou a superar a marca de R$ 5 nesta passada.

“Eu não consigo ver uma melhora relativa do real em relação a outras moedas tão cedo”, afirma Renato Pascon, gestor de renda fixa e multimercado da Franklin Templeton. Para ele, as ações no Brasil sofrem grande concorrência das bolsas americanas, por exemplo, que também estão com um preço menor. “Não vejo estrangeiro voltando para cá tão cedo. Primeiro ele precisa ver crescimento da economia”, explica.

Por Lucas Hirata e Marcelle Gutierrez, do Valor;
Imagem: Getty Images.